Biografia não deixa dúvidas de que Joe Paterno poderia ter feito mais

(Foto: Doug Pensinger/Getty Images)
Joe Paterno na beira do campo com os Nittany Lions de 2004 (Foto: Doug Pensinger/Getty Images)

Joe Paterno nunca gostou de sua estátua em frente ao Beaver Stadium, lar do Penn State Nittany Lions. Catão, político romano dos tempos antes de Cristo, explica: “Eu prefiro que os homens me perguntem por que eu não tenho uma estátua do que por que eu tenho uma”.

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Felizmente, ou infelizmente para alguns, Paterno não viveu o suficiente para ver a estátua ser retirada da frente do estádio, tampouco para ler sua biografia – “Paterno”, disponível apenas em inglês (US$ 17 na Amazon) –, escrita pelo jornalista Joe Posnanski e cuja abertura do terceiro capítulo é a citação de Catão. Se você nunca ouviu falar de Joe Paterno ou Penn State, aqui vai um rápido (rápido mesmo) resumo:

JoePa, como era chamado, foi o técnico dos Nittany Lions por 46 anos (1966-2011), conquistando 409 vitórias e 24 títulos de bowls. Sua saída da equipe se deu em meio a um escândalo de pedofilia envolvendo Jerry Sandusky, ex-coordenador de defesa do time; uma investigação concluiu que Paterno falhou em denunciar seu ex-auxiliar. Poucos meses depois de ser demitido do cargo, Paterno morreu após complicações causadas por um câncer de pulmão, aos 85 anos.*

Uma carreira construída ao longo de 61 anos – Paterno foi assistente dos Nittany Lions entre 1950 e 1965 – encerrada com um escândalo de abuso sexual de menores. Não demorou para que a controvérsia em Penn State chegasse a Posnanski. Como a história de Sandusky estourou enquanto o jornalista escrevia o livro, muitos o acusaram de ter criado um vínculo com o ex-técnico e, por conta disso, ter sido “mole” ao explorar a questão. Posnanski, por outro lado, afirmou que tentou ser o “mais justo possível”.

Ao longo de mais de 300 páginas, “Paterno” deixa mais perguntas do que respostas. O retrato que temos de JoePa até 2001, quando ele soube por Mike McQueary, assistente técnico do Penn State, que havia algo de errado com Sandusky, era esse: um homem correto; apaixonado pelo futebol americano, mas que sempre priorizou a educação dos jogadores e chegava a suspendê-los quando tiravam notas baixas; e alguém tão certo de seus princípios que beirava o exagero em certos momentos – em uma refeição com a família, ele saiu da mesa ao ver as filhas dividindo a comida, uma vez que só uma delas havia pago pelo serviço de buffet à vontade. Daí vem a pergunta: como um homem aparentemente tão íntegro poderia encobertar um pedófilo?

(Foto: (Patrick Smith/Getty Images)
Jerry Sandusky, culpado por abuso sexual e ex-auxiliar de Paterno (Foto: Patrick Smith/Getty Images)

Os capítulos finais não dão uma resposta, mas sugerem o que pode ter acontecido. A minha interpretação dos fatos não é muita complexa. Quando McQueary foi à casa de Paterno para dizer que achou que tinha visto o ex-coordenador dos Nittany Lions com uma criança em um chuveiro nos vestiários do time, Joe simplesmente não entendeu aquilo como pedofilia – o próprio McQueary afirmaria anos mais tarde que não tinha certeza do que viu ou ouviu.

E em 2001, Sandusky estava aposentado do seu cargo há dois anos, de forma que para Paterno, que nunca nutriu muita simpatia pelo seu antigo coordenador de defesa, este assunto não era da sua conta, mas da diretoria da universidade. Este pode ter sido o maior erro de JoePa. Preocupado com o time e com as críticas – muitos diziam que Jerry deveria ter assumido a equipe e que o sucesso do Penn State se devia às suas defesas –, ele pode não ter se importado, ainda mais após a temporada horrorosa de 2000: cinco vitórias e sete derrotas. Meses antes de morrer, Paterno disse a Posnanski que “deveria ter feito mais” na época da primeira denúncia. Posnanski concordou.

Um dia depois de ser demitido e dias antes de ser diagnosticado com câncer, Paterno chorou. O filho Jay não estava acostumado a ver o pai chorar, e ouviu dele as seguintes palavras: “Meu nome. Eu passei minha vida inteira fazendo com que ele significasse alguma coisa. E agora não significa nada”. Nem tanto.

Paterno morreu como o técnico mais vitorioso na história da NCAA. Ele perdeu o recorde, mas “Paterno” é competente em mostrar ao leitor como surgiu a lenda em State College, pacata cidade da Pensilvânia que abriga o campus da sua faculdade estadual. Embora nunca tenha trabalhado na NFL ou sequer dirigido outro time universitário, Joe teve a chance de comandar uma equipe profissional.

Cinco franquias em atividade ouviram o “não” do treinador: Oakland Raiders, Green Bay Packers, New England Patriots, Pittsburgh Steelers e New York Giants. Os que chegaram mais perto de tê-lo foram os Patriots. Em 1973, Billy Sullivan, então dono do time, ofereceu um contrato de quatro anos, US$ 1,4 milhão e 5% do clube – exato, Joe seria dono minoritário do New England –, era a maior oferta já feita a um técnico. Paterno aceitou. Horas depois, no meio da madrugada, ele ligou para Jim Tarman, diretor de esportes de Penn State, avisando-o que tinha voltado atrás na decisão.

A longevidade de JoePa frente aos Nittany Lions talvez seja reflexo do que aconteceu em Alabama. Depois de 25 anos, 323 vitórias e 15 títulos no comando do Crimson Tide, Bear Bryant se aposentou em 1982, aos 69 anos. Ele morreu menos de um mês depois, vítima de um ataque cardíaco. Paterno temia que a história se repetisse com ele. Curiosamente, ela se repetiu.

“Paterno” conta ainda a vez em que o treinador pediu a Richard Nixon, ex-presidente dos EUA, que ficasse quieto quando o assunto era futebol americano universitário, sua vocação em levar jovens talentos para Penn State – respaldada por declarações de diversos ex-jogadores –, e detalha com riqueza a carreira de um técnico que dedicou a maior parte de sua vida ao esporte. Para quem é fã e acompanha a NCAA, é leitura obrigatória.

(Foto: Christopher Weddle/Getty Images)
Funcionários de Penn State removem a estátua de Paterno (Foto: Christopher Weddle/Getty Images)

* Com a punição da NCAA, Joe Paterno tem agora 298 vitórias no currículo, a 12ª melhor marca da entidade. O dono do recorde volta a ser Eddie Robinson e seus 408 triunfos. Fora das faculdades da primeira divisão, John Gagliardi é o número 1, vencendo 489 partidas.

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