Quem foi O.J. Simpson, o running back?

Lou Saban e O.J. Simpson (Foto: Kevin Reece/NFL)
Lou Saban e O.J. Simpson (Foto: Kevin Reece/NFL)

“É com enorme prazer que faço essa apresentação. (…) Também vale dizer que ele é muito mais do que um grande atleta. Ele é um gigante entre os seus. (…) Ele sempre foi respeitado pela imprensa e sempre respeitou a imprensa, seus fãs e seus amigos. Eu nunca o vi negar um aperto de mão ou um autógrafo. (…) Meu único arrependimento é que ele nunca teve a chance de jogar em um time campeão.”

As palavras acima, proferidas na cerimônia de imortalização da classe de 1985 do Pro Football Hall of Fame, são de Lou Saban, ex-jogador e ex-treinador da NFL. O homem que Saban tanto elogia foi um de seus atletas nos anos 70, quando comandou o Buffalo Bills, e, realmente, não era um cara qualquer.

Recrutado com a primeira escolha geral do draft de 1969, ele quebrou o então recorde da NFL de jardas terrestres para uma temporada em 1973, conquistando 2.003 em 14 jogos, uma média de 143,1 jardas por jogo (recorde que persiste até hoje), além de liderar a liga no mesmo quesito em 1972, 1975 e 1976, sendo eleito para o time All-Pro em cinco oportunidades e MVP em uma. Em 11 anos dedicados ao futebol americano profissional, ele correu para 11.236 jardas, marca que o coloca em 21° no ranking.

De quem estamos falando? Orenthal James Simpson, ou apenas O.J. Simpson.

Nos últimos anos, acho que nunca se falou tanto sobre O.J. como agora. Primeiro, a boa série “The People v. O.J. Simpson: American Crime Story“, de 2016, chega à Netflix, atingindo um público muito maior; depois, “O.J.: Made in America“, documentário que é parte da ESPN Films, conquistou o Oscar de melhor documentário.

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Ezra Edelman e Caroline Waterlow com o Oscar de melhor documentário (Foto: Jeff Lipsky/A.M.P.A.S.)

Não bastasse o barulho provocado pelas duas produções, o ex-jogador vai deixar a cadeia em outubro após cumprir quase nove anos em regime fechado, lembrando que Simpson foi condenado em 2008 a 33 anos de cadeia por roubo à mão armada e sequestro, entre outras acusações; já no caso envolvendo o assassinato de sua ex-mulher, Nicole Brown, e do amigo dela, Ronald Goldman, o ex-atleta foi inocentado após o “julgamento do século”.

Agora, por que este caso ainda reverbera tanto décadas depois? Porque O.J. não era um jogador qualquer. Para nós, brasileiros, é inevitável comparar o ex-RB dos Bills com o goleiro Bruno. O caso envolvendo o então arqueiro do Flamengo teve uma cobertura gigantesca… Agora imagine se o réu fosse o Ronaldo, Ronaldinho GáuchoNeymar, KakáRomário… Dá para imaginar o quão maior seria este caso?

Elenco principal de The People v. O.J. Simpson (Foto: The Hollywood Reporter)

É difícil falar do jogador O.J. Simpson. Não só porque paira um fantasma sobre ele, afinal, o assassino de Nicole e Goldman segue livre, seja O.J., seja outra pessoa, mas porque ele brilhou nos anos 70. Como falar se alguém era bom ou não sem nunca tê-lo visto jogar, tendo como base apenas números em uma tabela e vídeos no YouTube?

Números em uma tabela e vídeos no YouTube ajudam, não tenham dúvidas sobre isso, mas decidi dar uma desenterrada no passado e ler o que os jornais publicavam na época em que Simpson fazia história, quebrava a marca das 2 mil jardas terrestres em uma temporada ou era trocado para o San Francisco 49ers.

O resultado do que pesquisei são elogios, elogios e mais elogios. A ideia aqui jamais será relativizar o que ele provavelmente fez. Saber o quão bom ele era (ou não) dentro de campo nos ajuda a entender o clamor em torno do julgamento e até nos dá uma noção de como essa popularidade conquistada após tantas jardas percorridas na NFL pode tê-lo ajudado a percorrer os passos mais importantes da sua vida: para fora da cadeia (tudo bem que depois ele foi preso).

O.J. na USC; ele é o primeiro da esquerda para a direita (Foto: Neil Leifer/Sports Illustrated)

A CHEGADA À NFL

O.J. vinha da prestigiada University of Southern California, uma das mais tradicionais dos EUA em termos de futebol americano, e algumas das suas marcas conquistadas ao longo de duas temporadas (1967 e 1968) permanecem até hoje no livro de recordes da universidade. Ele é o 5° no ranking de jardas (3.423) e touchdowns terrestres (36), e 2° em TDs em uma temporada, com 23, um a menos que LenDale White, além do título nacional de 67 e do Heisman Trophy, concedido ao melhor jogador universitário e que O.J. faturou em 68. Simpson chegou à NFL com status de estrela, consolidado após ser a primeira escolha geral do draft de 1969, e os Bills foram os primeiros a saber disto.

“O.J. pode se dar ao luxo de viver de sua conta bancária – por uma temporada, ao menos –, e cresce cada vez mais a possibilidade de este jovem, considerado por muitos como potencialmente o melhor corredor da história do futebol americano, não jogar nesta temporada. Simpson e seu empresário, Chuck Barnes, não falam com o dono do Buffalo, Ralph Wilson Jr., há seis semanas. Barnes diz que ele está esperando Wilson ligar; Wilson diz que não tem planos de ligar. (…) Simpson encerrou a terceira e última reunião para falar do contrato, em 26 de maio, de forma ríspida: ‘Beleza, não estamos indo a lugar nenhum. Eu gostaria de ser trocado’. (…) O que Simpson pediu foi US$ 650 mil por cinco anos, mais um empréstimo de US$ 500 mil para seus investimentos.”

Ready if you are, O.J.
(Sports Illustrated – 14/07/1969)

Pouco menos de um mês após a publicação da reportagem da Sports Illustrated, O.J. cedeu e assinou com os Bills. O RB não receberia os US$ 650 mil que gostaria no início das negociações, mas, ainda assim, recebeu um salário sem precedentes.

“O.J. Simpson, possivelmente o universitário mais premiado da história do futebol americano, acertou neste sábado com o Buffalo Bills um contrato que fará dele o calouro mais bem pago desde a fusão entre as ligas Americana e Nacional. (…) Especula-se que o calouro mais bem pago desde a fusão seja o quarterback do San Francisco, Steve Spurrier, que, em 1966, teria assinado um contrato de três anos e cerca de US$ 250 mil. (…) Se os números do contrato de Spurrier estiverem corretos, o contrato de Simpson deve valer em torno de US$ 350 mil.”

Price is right: O.J. says okay
(The Herald-Tribune – 10/08/1969)

O.J. foi o primeiro RB a correr mais de 2 mil jardas em uma temporada (Foto: Getty Images)

NASCE UM MITO DA BOLA OVAL

Com a camisa dos Bills, O.J. liderou a liga em jardas corridas em quatro temporadas. A sequência que culminou com o auge do running back teve início em 1972, mas foi no ano seguinte que ele colocou de vez seu nome no livro dos recordes da bola oval ao ultrapassar a barreira das 2 mil jardas, com 2.003, para ser mais exato. Simpson foi o primeiro homem a conseguir o feito e o único até hoje a fazê-lo em 14 partidas (outros seis atletas viriam a passar das 2 mil jardas, só que com dois jogos a mais):

1973: O.J. Simpson – 332 corridas, 2.003 jardas e 12 TDs em 14 jogos
1984: Eric Dickerson – 379 corridas, 2.105 jardas e 14 TDs em 16 jogos
1997: Barry Sanders – 335 corridas, 2.053 jardas e 11 TDs em 16 jogos
1998: Terrell Davis – 392 corridas, 2.008 jardas e 21 TDs em 16 jogos
2003: Jamal Lewis – 387 corridas, 2.066 jardas e 14 TDs em 16 jogos
2009: Chris Johnson – 358 corridas, 2.006 jardas e 14 TDs em 16 jogos
2012: Adrian Peterson – 348 corridas, 2.097 jardas e 12 TDs em 16 jogos

“Depois de correr 57 das 71 jardas da campanha do primeiro touchdown dos Bills, Simpson conquistou o recorde [de mais jardas em uma temporada, que até então pertencia a Jim Brown, com 1.863] na primeira jogada da posse seguinte. Com o right guard calouro Joe DeLamielleure tirando o defensive end Mark Lomas do caminho, Simpson quebrou para a esquerda e ganhou seis jardas antes que John Little o derrubasse por trás. (…) O jogo foi interrompido, os jogadores de ataque cumprimentaram Simpson e o abraçaram. Um árbitro deu a bola para Simpson, que levou para o banco de reservas dos Bills, onde foi cercado. (…) Após o recorde ser quebrado, os Bills passaram o segundo tempo focados na tentativa de levar O.J. à desconhecida marca das 2.000 jardas.”

O.J. writes history in the snow
(The New York Times – 16/12/1973)

Por incrível que pareça, 1973 não foi o melhor ano de O.J. em termos de estatísticas. Em 1975, ele foi o líder da NFL em corridas (329), jardas (1.817), TDs terrestres (16), TD terrestre mais longo (88 jardas), média de jardas por corrida (5,5) e média de jardas por jogo (129,8); não contente, o camisa 32 ainda registrou sua melhor temporada recebendo passes, com 426 jardas e mais sete TDs.

“Eles dependem da sua força terrestre, principalmente dos movimentos eletrizantes e deslumbrantes de um jovem guerreiro atraente e amável que pode superar Jim Brown como o maior running back na história do futebol americano – o número 32, O.J. Simpson. (…) O.J. conseguiu 173 jardas pelo chão e dois touchdowns na vitória humilhante dos Bills sobre o New York Jets por 42 a 14. O técnico dos Jets, Charley Winner, comenta: ‘Em um campo, O.J. Simpson seria perigoso em uma cadeira de rodas’.”

Buffalo turns on the Juice, and O.J. Simpson tramples the pro football record books
(People – 13/10/1975)

O.J. nos 49ers (Foto: Getty Images)

A TROCA COM OS 49ERS

Em março de 1978, depois de nove temporadas no frio de Buffalo, O.J. foi trocado com os 49ers e pode assim voltar para a sua querida Califórnia. O preço que San Francisco pagou para ter o running back foi alto: escolhas de 2ª e 3ª rodada do draft de 1978, uma escolha de 1ª rodada do draft de 1979 e escolhas de 2ª rodada e 4ª rodada do draft de 1980, além do salário de US$ 733 mil do último ano de contrato com os Bills.

“‘Finalmente estou em casa, meu Deus, finalmente estou em casa’, declarou Simpson assim que se encontrou com os repórteres após ser aprovado nos exames físicos. (…) ‘O.J. está volta’, afirmou o general manager dos 49ers, Joe Thomas. ‘E o mais importante é que nós não precisamos nos desfazer de nenhum jogador para pegá-lo. ‘(…) A troca não é uma surpresa. Simpson já vinha dizendo há um tempo que estava ‘frustrado’ em Buffalo e que gostaria de jogar em um candidato ao título. Os 49ers estavam ansiosos por uma faísca no ataque após diversas temporadas decepcionantes. E eles estão cientes da popularidade de Simpson por aqui [em San Francisco]. ‘O.J. será mais importante em campo; se nós fizemos nosso trabalho a bilheteria vai falar por si so’, diz Thomas ao ser perguntado sobre a habilidade de Simpson de atrair torcedores.”

 Simpson is traded by Bills to 49ers
(The New York Times – 25/03/1978)

O.J. estava em casa, mas O.J. não era o mesmo de antes. Lesões e um joelho que já viveu primaveras mais saudáveis fizeram com que “The Juice” não chegasse nem perto das conquistas individuais que conseguiu em Buffalo. Com os 49ers, O.J. somou apenas 281 jardas e quatro touchdowns em duas temporadas, vendo sua média, que até então era de 4,8 jardas por corrida, cair para 3,7.

O.J. Simpson e Bill Walsh (Foto: Frederic Larson/SF Chronicle)

Em artigo de 2008, Arne Christensen, do Bleacher Report, escreve que o Bill Walsh, técnico do SF entre 1979 e 1988, colocou em seu livro, “Building a Champion“, algumas observações que podem explicar os números decepcionantes de O.J. com os Niners: “[O.J.] sofreu uma lesão no joelho e desenvolveu artrite antes da troca com os 49ers. Seu joelho estava tão ruim que haviam vezes em que ele não conseguia nem trotar. Com frequência ele não conseguia treinar e fazer os cortes durante o jogo”.

“Para Simpson, voltar para casa também significava juntar-se a uma equipe que estava com seu terceiro técnico em 12 meses, um sujeito que seria mandado embora no meio da temporada, e que estava em reconstrução após um retrospecto de 5-9 no ano anterior. No 10° jogo de 1978, O.J. caiu com um ombro deslocado. Ele sugeriu que dessem uma olhada no joelho esquerdo, que havia sido operado e que nunca pareceu certo de novo. Eles encontraram seis pedaços de cartilagem ‘flutuando’ e um tumor, e quando abriram a parte de trás joelho, encontraram um cisto do tamanho de um limão.”

All dressed up, nowhere to go
(Sports Illustrated – 26/11/1979)

Depois de 11 anos de serviços prestados para duas franquias, O.J. decidiu pendurar as chuteiras na temporada de 1979. Com uma campanha de 2-13, o San Francisco se encaminhava para o jogo final, diante do Atlanta Falcons, e Simpson já nem era o RB titular, dando lugar para Paul Hofer. Questionado sobre a troca de corredores, O.J. não esquentou: “O técnico precisa se preocupar com o time da próxima temporada”.

“Se um candidato ao Super Bowl entrar em contato com ele, um free agent, talvez ele fique tentado. Mas ele já está se protegendo desta tentação. ‘Eu anotei em alguns bilhetes como meu joelho esquerdo dói e como é duro treinar’, diz. ‘Desta forma, se eu começar a pensar em jogar de novo em julho, eu terei algo para me lembrar a não fazê-lo. Eu estou totalmente pronto para me aposentar. Meus negócios precisam de mim.”

O.J. goes out with style
(The New York Times – 16/12/1979)

Antes de sair de cena, O.J. elegeu um “sucessor”, um atleta que quebraria seus recordes, assim como ele o fez com Jim Brown. Curiosamente, era outro O.J.: Ottis Jerome Anderson. O ano de 1979 era o primeiro de Ottis Anderson na NFL, e por mais que ele não tenha superado o O.J. original, Anderson teve uma ótima carreira na NFL, sendo bicampeão do Super Bowl  com o New York Giants e somando mais de 10,2 mil jardas e 80 touchdowns marcados.

O mais próximo que Simpson chegou de vencer o Super Bowl foi na derrota para o Pittsburgh Steelers nos playoffs da temporada de 1974. Foi a única vez em que o camisa 32 sentiu o gosto do mata-mata. Ironicamente, naqueles 49ers de 79 estavam dois caras que dariam quatro títulos para a franquia da Bay Area: Bill Walsh e Joe Montana. Dois anos após a partida de O.J., os Niners ergueram seu primeiro troféu Vince Lombardi.

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