Dez dúvidas (respondidas) sobre viajar para o Japão

Foto: Brunno Kono

Por que o Japão? Mesmo tendo ascendência japonesa (mas não, eu não falo japonês), a ideia de visitar a terra natal dos meus avós nunca esteve em pauta em um curto prazo. Quem deu a ideia de cruzar o mundo foi minha namorada, Catarina, e após comparar os valores de uma possível ida ao país do sol nascente com os de uma viagem para destinos mais, digamos, “comuns”, como os EUA ou a Europa, nós concluímos que, sim, ir ao Japão era possível.

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Pesquisamos em blogs em inglês e português e canais de YouTube para o planejamento da viagem (ocorrida em novembro de 2017), mas nem todas as respostas podem ser encontradas na web – algumas você só descobre vivenciando-as.

A ideia deste post é tentar tirar as dúvidas de temas primordiais – e um tanto quanto burocráticos – de uma viagem ao Japão, como quanto se gasta no país ou se é verdade que ninguém fala inglês lá… No entanto, o primeiro tema não é nenhum destes dois. É o… VISTO.


1. É DIFÍCIL TIRAR VISTO PARA O JAPÃO? 

O consulado japonês exige os seguintes documentos:  passaporte, foto (4,5 cm x 4,5 cm ou 3 cm x 4 cm), cópia do RG, formulário com seus dados (aqui), cronograma da viagem (aqui), comprovante do extrato bancário ou aplicações dos últimos três meses, cópia da sua declaração do IR e as passagens aéreas compradas.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Se será preciso levar mais documentos ou se os citados acima vão bastar, vai depender de um “número mágico“. A informação que me foi passada por uma agência de turismo é a de que o turista deve ter, em conta ou aplicações, R$ 1 mil para cada dia de viagem para ter seu visto aprovado sem problemas, ou seja, 14 dias de viagem significariam R$ 14 mil no bolso.

Quanto disso é verdade? Não sei. O que sei é que os funcionários do consulado não têm cerimônia. Eles olham seus comprovantes de renda (principalmente o IR) e se a sua grana estiver acima do “número mágico”, eles carimbam e pedem que você retorne em alguns dias para retirar o passaporte; se estiver abaixo, eles dizem na hora que o valor não é suficiente e pedem que você leve mais documentos que possam comprovar que você tem meios de pagar pela viagem. Caso você ache que se enquadre no segundo caso, IRs de familiares de primeiro grau ou marido/esposa servem (quem apenas mora junto precisa levar provas disto, como o contrato de locação da casa ou apartamento) – eles entrariam na parada como seus “garantidores”.

Outra particularidade deste processo é a de que, a partir do momento que seu visto é emitido, você tem três meses para ir e voltar do Japão. O que isso significa? Que vai ter emoção. Você vai dar entrada no visto a alguns meses da viagem e ainda pode correr o risco de ter ele negado. No nosso caso, iniciamos o processo no fim de setembro e nossa ida estava agendada para 6 de novembro. Ah, e antes que eu esqueça, é preciso pagar uma taxa de R$ 97 ao retirar o passaporte (com o visto, é claro).


Foto: Facebook da Air Canada

2. PASSAGEM PARA O JAPÃO

Se você leu o item 1 com atenção, então, sim, é preciso comprar as passagens antes de ter seu visto. Não existem voos diretos para o Japão, então a conta que você deve fazer é a relação entre preço x número de conexões x tempo total de viagem, e aí é pessoal.

Eu monitorei por um bom período e cheguei a ver passagens de ida e volta em torno de R$ 2.600 e R$ 2.800, cerca de R$ 200 a mais do que viajar para Nova York, por exemplo.

Optamos por um voo da Air Canada (patrocina nóis, pô) com uma conexão em Toronto. O tempo total de viagem na ida passaria das 31 horas, enquanto a volta seria mais “curta”, com um tempo total estimado em umas 28 horas e uns quebrados. Custo da passagem: R$ 3.219 (eu vacilei e não consegui aproveitar os preços citados acima). Há voos que fazem escalas nos EUA, México, Alemanha, Emirados Árabes… Vai do gosto ou bolso. O que eu posso antecipar aqui é o seguinte: VOCÊ CHEGA QUEBRADO.


3. HOTEL x AIRBNB

Este é o velho dilema de toda viagem. No caso do Japão, nos hospedamos em hotel em Tóquio e Airbnb em Quioto e Hiroshima. Ficar em hotel costuma sair um pouco mais caro, mas tem a vantagem de, dependendo do serviço que você utiliza (recomendo o Decolar), de parcelar o pagamento – no Airbnb, esta possibilidade até existe, mas o máximo que vi foi dividir o gasto da hospedagem em Hiroshima em duas vezes (no caso de Quioto a opção não apareceu).

Uma vez em Tóquio, a oferta de hotéis é GIGANTESCA. Não se preocupe em reservar dias antes de embarcar. Agora, nas demais cidades, principalmente aquelas com forte apelo turístico, como Quioto, pode não ser assim, de forma que o Airbnb é a saída para você não se ver obrigado a gastar bem mais do que havia estipulado.


4. MONEY, MONEY, MONEY

Foto: Wikimedia Commons

Afinal, o Japão é um país caro? Esta é a pergunta de um milhão de dólares, ou melhor, de um milhão de ienes. Bom, começando pelo começo, a moeda utilizada por lá é o iene, e um iene vale cerca de R$ 0,031 nas casas de câmbio (este é o valor para venda, não para compra).

Sobre o país ser caro ou não, o que posso dizer é que uma pessoa acostumada com os preços de São Paulo não será pego de calças curtas em solo nipônico. Não é tão caro quanto nós pensávamos, mas também não é Buenos Aires nos dias de glória. Nosso gasto operacional em 14 dias no Japão (chegamos no dia 8 de novembro e fomos embora no dia 21) foi de R$ 10.129,23, divididos assim:

– Comida: R$ 2.785,78
– Hospedagem: R$ 3.899,68
– Passeios: R$ 1.032,52
– Transporte: R$ 2.411,25

Com isso, o gasto operacional diário saiu por volta de R$ 723,51 ou R$ 361,75 por pessoa. Se considerarmos que em viagens anteriores gastamos uma média de R$ 425 em Paris e R$ 320 em Istambul, não foi o absurdo que se pinta por aí. A hospedagem e parte considerável do transporte, o Japan Rail Pass (R$ 1.797,84 de R$ 2.411,25), foram pagas no cartão de crédito, enquanto o restante foi em dinheiro.

Quanto nós levamos em espécie na viagem? 280 mil ienes – trocamos pouco mais de R$ 8.700 na GetMoney Câmbio do Shopping Eldorado, que nos fez uma cotação de R$ 0,03115 por iene. Quanto você deve levar? Se você não for uma pessoa de excessos ou muito compulsiva, uma conta de US$ 100 por dia deve te deixar confortável.


5. JAPONESES REALMENTE NÃO FALAM INGLÊS?

Depende. É nítido que eles têm uma dificuldade, principalmente com a pronúncia, mas eles falam inglês o suficiente para anotar o pedido no restaurante, ajudar com direções para algum lugar ou tirar dúvidas simples, como o preço de algo ou se tal roupa tem no tamanho X. Além disso, boa parte dos estabelecimentos conta com cardápio em inglês, assim como as placas no metrô, por mais caóticas que elas possam parecer.

Nas lojinhas de conveniência, que serão a sua fonte primária de comida, os rótulos dos produtos estão em japonês, só que isso só tende a ser um problema – foi para nós – no caso dos oniguiris recheados, muito parecidos com os que são vendidos na Liberdade, porque nem todos indicam o que vem dentro. Você escolhe às cegas.


Foto: Brunno Kono

6. COMIDA NO JAPÃO

A pessoa que não come peixe cru terá dificuldades no Japão? Nem um pouco! Por incrível que pareça, o que menos vimos de oferta foi sushi, sashimi, temakis e companhia. Ué, então o que o povo come lá? Massa (udon, ramen ou soba), frituras e arroz branco, mas não o “soltinho” do nosso dia-a-dia.

Nas lojas de conveniência você encontra de tudo: saladas, wraps, macarrão como molho bolonhesa, pratos com curry, sanduíches e até (eu acredito ter visto um) bife à parmegiana. É escolher, pagar barato e tentar ser feliz.

E aquelas comidas de mentira? É sério que o cardápio de mentira fica exposto na vitrine? Sim, e embora você ache estranho no início, as reproduções dos pratos facilitam – e muito – a sua vida na hora de fazer seu pedido, até para evitar a deselegância de sentar na mesa, olhar o cardápio, não achar nada que agrade, levantar e ir embora. Ao longo da viagem nós já não entrávamos em lugares que não tinham vitrine. Mais detalhes sobre o que comemos estarão nos guias específicos de Tóquio, Quioto e Hiroshima.


7. TRANSPORTE NO JAPÃO E JAPAN RAIL PASS

Foto: Brunno Kono

Das seis cidades que visitamos, quatro contam com uma rede de transporte coletivo (ônibus, trem, metrô e bonde) que supre bem as necessidades de locomoção. Falamos de Tóquio, Quioto, Osaka e Hiroshima – em Nara e Miyajima, fizemos tudo a pé.

Um detalhe do transporte coletivo no Japão, ou pelo menos nos lugares onde estivemos, é que, com exceção do ônibus, nos demais serviços você paga de acordo com a distância. Vai andar apenas uma estação? Você paga a tarifa mínima. Vai andar oito estações e descer só na última? Você paga mais, talvez até a tarifa máxima. É um modelo com o qual nós, brasileiros, não estamos acostumados, mas que faz sentido.

Para evitar ter de comprar os bilhetes um a um, é mais negócio comprar um passe que permita o uso ilimitado. No caso do metrô de Tóquio, há três opções: 24h (800 ienes), 48h (1.200 ienes) e 72h (1.500 ienes). É mais prático e o custo-benefício é enorme.

E o Japan Rail Pass? Vale a pena comprar? Como funciona?

Foto: Brunno Kono

Vamos lá… O Japan Rail Pass é um passe vendido apenas para estrangeiros que permite viajar pelo Japão usando as linhas da Japan Railways Group (JR Group), entre elas as usadas pelos famosos trens-bala, o “Shinkansen” – são sete linhas de trem-bala: quatro rumam para o norte do país saindo de Tóquio, três seguem para o sul.

Para saber se vale a pena comprar ou não o passe, consulte o site HyperDia e veja quanto sairiam os trechos de trem que você vai fazer. No nosso caso, tudo ficaria por volta de 44 mil ienes, ou uns R$ 1.370 por pessoa. Já o Japan Rail Pass de sete dias nos custou R$ 898,92.

Feito isso, para adquirir o passe basta entrar no site oficial e escolher o pacote de sete dias (US$ 257), 14 (US$ 409) ou 21 (US$ 523). Eles irão mandar um voucher para a sua casa (o frete custa US$ 23), e é este voucher que você deve levar consigo e trocar pelo Japan Rail Pass (veja a foto ao lado) no escritório deles nos aeroportos de Haneda ou Narita.


8. WI-FI E ACESSO À INTERNET

Uma das dúvidas mais comuns que ouvimos é se compramos um chip de celular. Não, não compramos. Em vez disso, alugamos um Wi-Fi portátil que nos permitia ter acesso ilimitado à internet durante 24 horas (contanto que a bateria não acabe). O aparelho é pequeno, pode ser levado na bolsa e, no nosso caso, tinha uma velocidade média de 17 mb de download e 19 mb de upload, o que é mais do que suficiente para WhatsApp, Facebook, Instagram e, mais importante, Google Maps.

Alugamos o nosso com a Telecom Square (retiramos e devolvemos no escritório deles no Aeroporto de Haneda) por 9 mil ienes. Com o seguro (2,8 mil ienes) e os impostos (944 ienes), o pacote custou 12.744 ienes, ou R$ 396 por 14 dias (cerca de R$ 28 por dia). Considerando que o uso de dados é ilimitado (algo que não ocorreria com um chip) e você precisa de internet, é um investimento que você deve fazer. Dá para se virar no Japão sem 3G? Pode ser que dê, mas garanto que você levará o dobro ou o triplo do tempo para encontrar um lugar ou uma rota.


Foto: Brunno Kono

9. O JAPÃO É TÃO SEGURO QUANTO DIZEM?

É. Ponto. Próxima pergunta.

Para não resumir tanto assim, vou relatar aqui uma experiência pela qual passamos em Tóquio. Estávamos no New York Bar, no bairro de Shinjuku, e nosso Wi-Fi portátil já havia morrido, sem bateria. Passava das 23h. Nos conectamos ao Wi-Fi do bar e vimos que o último metrô para nosso hotel sairia em uns 15/20 minutos.

Se não pegássemos este metrô, teríamos de voltar a pé porque não cogitávamos pedir Uber ou táxi, ambos muito caros no Japão. Decidimos ficar no bar e pegar os 2,3 km de caminhada até o hotel. Saímos depois da meia-noite, caímos na rua com um frio um tanto quanto incômodo de uns 8°C, mas assim que nós pegamos a avenida principal que nos levaria ao hotel, nos deparamos com dezenas de pedestres. A tranquilidade é absurda. Nos acostumamos com essa realidade – bem distante da nossa – em poucos dias. Rua deserta? Sem problema. Beco escuro? Sem problema. Bem-vindo ao Japão.


Foto: Facebook do Abroad in Japan

10. COMO MONTAR O ROTEIRO?

Se você chegou até aqui, você é um guerreiro.

Bom, tiradas as dúvidas, por onde você começa a montar o roteiro de uma viagem ao Japão? Eu não vou defecar regras aqui porque cada um faz o roteiro que julgar melhor.

O único preceito básico é casar o tempo do seu Japan Rail Pass (7, 14 ou 21 dias) com sua viagem certinho. Por exemplo: pegamos o passe de sete dias, começamos a utilizá-lo no dia 14/11 e nossa última viagem de trem foi no dia 20/11.

Sobre guias, usamos bastante o “Descubra o Japão“, da Lonely Planet (à venda na Amazon por R$ 48,90); dos guias impressos ilustrados, este é o que achei melhor. Outra coisa que ajuda muito na hora de decidir os lugares que você pretende visitar são eles, os famigerados youtubers. Separei seis que considero muito bons:

Abroad in Japan, por Chris Broad
Only in Japan, por John Daub
internationally ME, por Angela
Mark Wiens, por Mark Wiens
Gareth Leonard, por Gareth Leonard
Ericsurf6, por Eric Berg

Espero ter ajudado vocês. BOA VIAGEM!

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