Quioto, eu te amo

Lamparina perto da entrada do Nishiromon Gate

Se você ficar um ano em Quioto e visitar quatro templos ou santuários por dia, você não dará conta de conhecer todos que existem na cidade. Cerca de 2 mil construções – algumas delas carregam o seleto título de patrimônio mundial da Unesco – tornam a antiga capital do Japão um destino quase que obrigatório (ainda que eu odeie esta palavra em roteiros turísticos) para quem visita o país.

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Digo mais, ir para Quioto após conhecer Tóquio talvez amplifique sua experiência. Os letreiros de neon e as multidões em faixas de pedestres ficaram para trás, literalmente (mas as multidões ainda existem, não se engane). A graça aqui é fazer uma caminhada matinal pela floresta de bambus, explorar os escuros becos do bairro de Gion e topar com uma mulher caracterizada como geisha (difícil saber se a pessoa é uma estudiosa desta tradição ou só se vestiu assim), se perder e entrar em um templo a esmo…

Noite em Quioto

Nós passamos quatro dias na cidade e fomos embora com dois pensamentos na cabeça: não existe foto feia em Quioto e não subestime o número de dias que você reservou – a cidade é linda demais e você nunca dirá “poderíamos ter ficado menos tempo aqui”.

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Abaixo falarei de como foi nossa passagem por esta metrópole de tradições, o que nós fizemos e comemos, e como é visitar Osaka e Nara, que ficam nas proximidades, têm propostas diferentes e que valem o passeio.


  • Chegando e voltando de Quioto

Shinkansen! Passados sete dias em solo nipônico, finalmente pegamos o famoso trem bala. E passados sete meses desde que viajamos, não lembro de qual estação sai o dito cujo. Detalhes à parte, ativamos o Japan Rail Pass e já providenciamos a reserva para o trem em direção a Quioto.

Como faz isso? É bem simples. Basta passar no escritório da JR na estação, apresentar o passe e informar o funcionário de qual é o seu destino. Ele vai te passar os horários disponíveis e aí você escolhe. Abaixo você vê o bilhete do trem e as informações para ficar de olho (quem não reserva viaja em um vagão específico para tal).

INFORMAÇÕES DO BILHETE
HIKARI 524: 
nome do trem (é preciso perguntar de qual plataforma ele sai)
14:06 -> horário de partida | 17:10 -> horário de chegada
Car. 12 Seat. 18-B -> número do vagão e número da poltrona

Uma das coisas mais bacanas sobre os trens no Japão, além da pontualidade cirúrgica, é o costume de levar/comprar/comer marmita na viagem. Não é exatamente um serviço de bordo. Na estação e mesmo na plataforma você verá lojinhas vendendo uma caixa mais bonita que a outra: é o famoso “bento”. Nós pagamos 2.060 ienes (R$ 64,89) em duas bandejas de sushi (uma boa, a outra, nem tanto).

* A cotação é de 1 iene = R$ 0,0315.

Marmitas no trem; o da esquerda é um típico conjunto de niguiris (bem bom), já o da direita são niguiris enrolados em folhas, mas têm um sabor salgado e forte de peixe

A viagem em si é bem “japonesa”: tranquila e segura. Deixamos as malas maiores no fim do vagão (é necessário avisar o funcionário do trem para ele saber que as bagagens são suas). De Quioto nós rumamos para Hiroshima, seguindo os mesmo protocolos.


  • Onde ficar em Quioto?

De preferência, perto de um metrô. Como deixamos para reservar o hotel em cima da hora, as opções ficaram meio escassas (e caras). Fomos de Airbnb. O apartamento que alugamos não está mais disponível, mas fomos felizes na escolha, pagando R$ 1.056,35 por quatro noites em um espaço BEM maior do que o hotel de Tóquio. Voltando à parte do metrô, nosso lar em Quioto ficava a alguns quarteirões de distância da estação Nijo; a região ainda contava com supermercado, lojinhas de conveniência e restaurantes.

Localização do Airbnb em Quioto:

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Existem também os famosos ryokans, hotéis tradicionais japoneses. Você dorme em um tatami, usa quimonos, experimenta uma verdadeira refeição local naquelas mesas mais baixas… Eu dei uma pesquisada por cima e achei tudo meio caro demais. Ficamos com o apartamento do “Yusuke San” por R$ 264 a noite.

Nosso aconchegante apartamento em Quioto (Foto: reprodução/Airbnb)

  • Andando por Quioto

Quioto não tem a mesma quantidade de linhas e estações de Tóquio, mas as existentes cumprem bem a função de te levar aos principais pontos da cidade. São duas linhas de metrô (Karasuma e Tozai) e várias outras de trem; algumas delas operadas pela JR e que são “de graça” com o passe. Para ver a rede de transporte público, clique aqui.

Fique atento às plataformas de onde sai seu trem. Nós demos uma penada em alguns momentos, e no caso dos trens, eles passam com um intervalo maior de tempo, logo, ir para o lado errado pode te custar uns 15/20 minutos. Juntando todas as conduções que pegamos, inclusive em Osaka e Nara, o gasto total foi de 3.980 ienes (R$ 125,37).

Outra forma de locomoção comum em Quioto é a bicicleta. Crianças, jovens, adultos indo ou voltando do trabalho, idosos, gente com os filhos em cadeirinhas… Todo mundo anda. Uma coisa legal do Airbnb é que alguns anfitriões disponibilizam as “magrelas” no pacote – era o nosso caso. Apesar disso, as usamos em um dia só porque sou braço.


  • Comendo em Quioto-Osaka-Nara

Como sempre, as lojinhas de conveniência salvam a vida. Em alguns dias você já estará totalmente mal acostumado. Em Quioto-Osaka-Nara foram 3.859 ienes (R$ 121,55) gastos nestes estabelecimentos e 10.145 ienes (R$ 319,56) gastos em restaurantes ou com comida de rua. Eu já falei que no Japão se come muito e se come bem, certo? Como cada passeio acabou tendo sua particularidade gastronômica, vou entrar nos detalhes mais abaixo.

Bandeja de niguiris em Nara por mil ienes. Sim, são de mentira

  • Passeios em Quioto

1. ROLÊ PELA NOITE

Quanto custa: nada.
Estação mais próxima: escolha uma e desça.

A primeira coisa que fazemos quando chegamos em um destino desconhecido é largar as malas no hotel ou apartamento e dar uma volta sem um objetivo definido. Em Quioto não foi diferente. Pegamos o metrô e descemos na estação Higashiyama (linha Tozai), e ali começou o rolê noturno. Sabíamos que a região tinha vários templos e santuários.

Descendo a Higashi Oji Dori, paramos em uma loja de conveniência chamada Fresco Petit para beliscar algo (ninguém é de ferro). Continuamos andando e uns quarteirões depois nos deparamos com um portal, uma rua timidamente iluminada e um suntuoso templo ao final dela. Apesar do breu, seguimos adiante porque, afinal, é o Japão.

Cerejeira chorosa, porta de um ryokan e o caminho para o Kodai-ji

O templo em questão é o Chion-in – acabamos não entrando. Virando à direita na rua do templo você adentra o parque Maruyama, que tem um aspecto fantasmagórico à noite, principalmente com a “cerejeira chorosa de Gion”. Seguimos em frente… Um dos pontos turísticos mais famosos da região é o templo Kodai-ji, e um dos caminhos que levam até ele é mágico (à noite, pode ser que durante o dia seja sem graça); como não achei o nome em português, procure por “台所坂”. Não entramos no Kodai-ji (os dois templos citados neste parágrafo cobram para entrar).

Bom, não muito longe do 台所坂 fica a “rua mais bonita de Quioto”: Ishibei-koji. É bom ficar atento porque a entrada desta rua é discreta e passar reto por ela é fácil. Agora, por que ela é tão especial? Porque dizem que ela está conservada exatamente como nos tempos antigos – sou um inútil e não tirei uma foto que prestasse.

Não demora muito para você cair no santuário de Yasaka, construído há mais de mil anos e que fica no coração de Quioto, ao lado do emblemático bairro de Gion. Em volta há outros santuários menores, mas o torii (procure “八坂神社 石鳥居” no Google) que leva para o de Yasaka e as lamparinas acesas à noite o tornam o mais bonito (não à toa ele está no centro da porra toda).

Lamparinas no santuário de Yasaka

Tantas caminhadas (Quioto foi o lugar onde mais andamos) geram… FOME. Como não estamos mais em Tóquio, onde muita coisa fica aberta até tarde e já passava de 22h, preferimos não dar bandeira. Fomos ao Gion Kyomen, bem perto do santuário. Serviço bem bom e por um preço razoável: 2.120 ienes (R$ 66,78) por um sobá e um udon.

Meu prato no Gion Kyomen

Fechamos a noite descendo a Shijo Dori, atravessando o rio Kamo e andando ao lado de um pequeno canal que corre paralelamente ao rio. Essa região tem muitas opções de bares, restaurantes e pessoas visivelmente embriagadas (algumas dando uma gorfada na rua, inclusive), Pegamos a estação Sanjo e voltamos para casa.


2. FLORESTA DE BAMBU E TEMPLO NISON-IN

Quanto custa: 500 ienes por pessoa (R$ 15,75 – entrada no templo).
Estação mais próxima: Saga-Arashiyama (linha San-In).

Quioto tem dezenas de cartões-postais icônicos. Todos valem a visita, mas se você não quiser sua foto tomada por gente, acorde cedo e chegue por volta de 7h, 8h da manhã. Depois das 10h tudo fica abarrotado.

Saindo da estação Saga-Arashiyama, basta seguir o fluxo de gente. A primeira parte da floresta não é nada demais e não vai te impressionar, então continue seguindo o fluxo, onde você vai passar por músicos de rua, um santuário, muros… Assim que a entrada do templo Tenryu-ji estiver à esquerda, a entrada do bosque – de fato – de bambus estará na sua frente. Tenha paciência porque o caminho de uns 200 metros de comprimento é estreito em alguns trechos e é muita gente querendo tirar foto ao mesmo tempo.

A famosa floresta de bambus

Como a passagem pelo bosque de bambus é rápida, sobra tempo para apreciar a região. Nas andanças por aqui e ali, topamos com uma simpática lojinha de artesanato e casa de chás comandada por um casal de idosos. A entrada é toda decorada com estátuas de “tanukis”, o cão-guaxinim japonês, que supostamente trazem sorte. Tomamos um chá verde – o melhor da viagem – por 500 ienes (R$ 15,75) e levamos uma miniatura desse porquinho-cachorro-guaxinim engraçado por 450 ienes (R$ 14,17). Vou tentar colocar a localização exata abaixo.

Tanuki

Ao lado desta casinha de chá fica a entrada do templo Nison-in. Construído entre os anos de 834 e 847 – e reconstruído depois ser destruído na Guerra de Onin (1467-77) –, este templo recebia as cerimônias budistas da corte imperial antes do império ir para Tóquio, sendo um dos poucos de Quioto a ter tal tarefa. Segundo o site Travel Japan, o considerável número de nobres enterrados ali comprova o prestígio do local.

O templo é bem maior do que aparenta ser e a vista das partes mais altas é espetacular, ainda mais com os tons que o outono dá para as florestas. As entradas saem por 1.000 ienes (R$ 31,5) para dois, que é o preço padrão dos templos. No retorno à estação, tomamos um sorvete de chá verde (300 ienes ou R$ 9,45), comemos um udon (500 ienes ou R$ 31,50) no quiosque que fica na entrada da primeira parte da floresta e a Catarina comprou um negócio de cosméticos em uma loja chamada Black Paint.


3. KINKAKU-JI

Kinkaku-ji

Quanto custa: 400 ienes por pessoa (R$ 12,60).
Estação mais próxima: não tem (fomos de bicicleta).

O Pavilhão de Ouro de Quioto, mais conhecido como Kinkaku-ji (e que era chamado de Rokuonji), é a prova de que a cidade é à prova de fotos ruins. A estrutura que você encontrará lá não é a original. A original foi destruída em uma guerra civil no século 15 e o prédio construído no lugar deste, por sua vez, foi destruído por um monge em 1950, que botou fogo no templo; o pavilhão foi reconstruído em 1955.

O homem por trás do pavilhão é Yoshimitsu Ashikaga, terceiro xogum do Xogunato Ashikaga, que idealizou o prédio com três estilos distintos de arquitetura: Shinden no primeiro andar, Bukke no segundo e Chinese Zen Hall no terceiro; os dois andares de cima são cobertos por folhas de ouro. Após a morte de Yoshimitsu, em 1408, o local foi convertido em um templo. Em 1482, seu neto, Yoshimasa, construiu o Pavilhão de Prata (Gingaku-ji) do outro lado da cidade (não fomos neste), também convertido em templo, mas em 1490.

Como toda boa atração “quiotana”, o Kinkaku-ji é lotado, mas como é um espaço amplo, a galera se espalha e você consegue caminhar, apreciar a paisagem e tirar fotos e selfies com tranquilidade.


4. KIYOMIZU-DERA

Quanto custa: 400 ienes por pessoa (R$ 12,60).
Estação mais próxima: Kiyomizu Gojo (Keihan Main Line).

Amanhecer em Quioto (é bonito demais); foto tirada na entrada do Kiyomizu-dera

Acordar cedo tem suas recompensas. Não eram nem 8h da manhã e nós já estávamos aos pés do Yasaka pagoda, a caminho do templo Kiyomizu-dera em uma caminhada de uns 2 km, quase sempre subindo (mas nada impeditivo). Do alto da sua famosa varanda de madeira se tem uma das vistas mais bonitas de Quioto, e, no nosso caso, o outono a tornou ainda mais espetacular.

Infelizmente, as obras neste templo fundado em 778 e cuja maioria da construções foi erguida em 1633 seguem a todo vapor. A reforma no prédio principal, que começou em fevereiro de 2017 (nós fomos em novembro daquele ano), deve terminar em março de 2020 – fique tranquilo que ela não atrapalha o passeio.

O fato de termos chegado bem cedo ajudou bastante, por mais que muitas lojinhas no charmoso trajeto até o templo nem estivessem abertas (as pegamos abertas – cheias de gente – na volta). Andamos pelo complexo, fomos até o Koyasu pagoda, descemos até a fonte de “água pura” (Kiyomizu-dera significa “templo da água pura”) e saímos de lá pela parte de baixo, fechando a visita com a sempre imbatível combinação paisagista de lago-jardim que os japoneses dominam.

Panorâmica do Kiyomizu-dera (em reforma)

5. FUSHIMI INARI-TAISHA

Quanto custa: nada.
Estação mais próxima: Inari (Nara Line).

A decoração na estação não deixa dúvidas: você chegou ao Fushimi Inari-taisha. Lar de milhares de portais laranjas, este santuário é o mais importante em homenagem a Inari, deus do arroz, e tem a raposa, representada ali com várias estátuas, como símbolo, uma vez que acredita-se que ela seja a mensageira de Inari.

O mandamento nipônico de “chegue cedo” vale mais do que nunca aqui porque alguns corredores são estreitos e ficam igual baldeação de metrô em horário de pico – vimos até um casal que bloqueou a passagem com um carrinho de bebê para tirar fotos, então vá equipado com sua paciência.

Fushimi Inari-taisha

Os portais se estendem por cerca de 4 km e a caminhada até o topo do monte Inari leva de duas a três horas. Cada portal que você verá ali foi doado, seja de pessoa física ou de uma empresa, e na parte de trás estão escritos o nome do doador e a data. Quanto maior o torii, mais $$$ a pessoa doou – um torii grande custaria 1 milhão de ienes (ou R$ 31 mil na cotação da época em que viajamos).

A trilha até o cume está looonge de ser um passeio obrigatório. Vá até onde quiser e volte. Como o santuário não cobra para entrar, uma alternativa “diferentona” é visitá-lo à noite. Fomos lá pelas 20h, não havia quase ninguém e foi bem tranquilo. Catarina fez, inclusive, uma ligação de vídeo (amém, Wi-Fi portátil) para o pai.


6. CASTELO DE NIJO

Quanto custa: 600 ienes por pessoa (R$ 18,90).
Estação mais próxima: Nijojo-Mae (Tozai Line).

Jardins do Castelo de Nijo

Aproveitando que nosso apartamento era próximo do Castelo de Nijo, decidimos dar um pulo no primeiro castelo da viagem. Construído por ordem de Ieyasu Tokugawa, o 1° xogum do Período Edo (1603 a 1868), Nijo é, supostamente, um dos palácios mais bem preservados do Japão feudal. Quando o xogunato dos Tokugawa acabou, dando início ao Período Meiji, o local passou a ser usado pelo imperador, mas foi doado para a cidade de Quioto em 1939 e aberto ao público no ano seguinte.

A grande atração dentro do castelo é o Palácio Ninomaru, usado pelo xogum quando este visitava Quioto. No seu interior é possível observar a divisão dos cômodos, como era uma audiência com o xogum, pinturas originais (muitas estão sendo restauradas) e ouvir o piso-rouxinol, uma estrutura que fica bem abaixo do piso e que emite um ruído quando você pisa (é impossível passar despercebido). Reza a lenda de que isso existia para evitar ataques furtivos. Como estávamos acompanhados de uma excursão escolar, era um “nhec nhec” capaz de despertar qualquer um do sono mais profundo.


  • Curtindo a vida adoidado em Osaka

Famoso outdoor da Glico em Dotonbori

As luzes voltaram! Terceira maior cidade do Japão, com mais de 2,6 milhões de pessoas, Osaka – se fala Ôsaka – tem o mesmo ar pulsante e moderno que se respira em Tóquio, e com um ingrediente extra: comida.

Osaka é considerada a capital gastronômica do país e de acordo com o documentário “Street Food“, da Netflix, é a cidade onde os japoneses costumam gastar um pouquinho mais com as refeições.

Como só iríamos passar o dia na cidade, fomos em duas atrações: Dotonbori e Castelo de Osaka. Já a viagem entre Quioto e Osaka é bem tranquila, dura uns 30 minutos e o trecho é coberto pelo Japan Rail Pass. Você desembarca na estação de Osaka e de lá se locomove tranquilamente usando o transporte público local.

Falando em transporte público, aqui vai uma dica importante: em Osaka, as pessoas ficam do lado DIREITO da escada rolante, assim como no Brasil, deixando a ESQUERDA livre, ao contrário do restante do Japão, onde a passagem é dada pela direita e você fica na esquerda. 

Da estação de Osaka nós pegamos a linha Midosuji pela estação Umeda e descemos na estação Namba, a metros do Dotonbori ou “canal do Doton”, homenagem a Yasui Doton, um comerciante que teria gasto todo o seu dinheiro em um projeto de um novo canal, mas que morreu no Cerco de Osaka, em 1615. Seus irmãos terminaram a obra e a batizaram assim.

Dotonbori é a epítome da expressão “kuidaore”, ou “ir à falência por gastar tanto com comida”. São muitas lojas e restaurantes, e várias deles escancaram suas especialidades, literalmente, por meio de fachadas dignas de desfiles na Marquês de Sapucaí.

Aqui vende-se o bolinho de polvo; fácil de saber, né?

Nós recomendamos tudo que experimentamos: takoyaki (bolinhos de polvo feitos na hora por 600 ienes), uma bandeja de sushis e niguiris (1000 ienes), uma porção insana de tempura (1000 ienes), batata frita fatiada com tempero de algas (500 ienes) e o pão de melão com recheio de sorvete de creme (400 ienes). Coma quantos puder deste pão de melão – o local se diz o “segundo melhor do mundo” a fazê-lo – porque ele é delicioso e o pão de melão vendido no Brasil não chega aos pés do nipônico.

Takoyaki, tempura, batata, sushi e pão de melão com sorvete de creme

Fora a comida, outra atração em Dotonbori é o outdoor da Glico, uma doceria japonesa com sede em Osaka, com um homem correndo, ao lado da ponte Ebisubashi. O painel tem 20 x 10 e se encontra em sua 6ª ou 7ª versão; a primeira foi instalada em 1935.


A maldição do coronel

Aqui eu abro um parênteses para contar uma história sensacional que me foi contada, por sua vez, por Ubiratan Leal. Osaka é lar de muitos torcedores do Hanshin Tigers, clube da NPB (liga japonesa de beisebol) que um dia já se chamou Osaka Tigers. Só que esses torcedores não só nunca viram os Tigers serem campeões, como ainda viram o rival Yomiuri Giants levantar o caneco 16 vezes. Até 1985.

Em 85, tudo mudou. Os Tigers bateram o Seibu Lions na final e sagraram-se campeões. Os fãs tomaram a ponte Ebisubashi, gritaram os nomes de cada jogador e um torcedor que fosse parecido com este atleta se jogava no rio. Mas havia um problema: o MVP do time era Randy Bass, um norte-americano branco barbudo, e não havia nenhum branco barbudo disponível. A solução – muito criativa, por sinal – encontrada foi jogar uma estátua em tamanho real do coronel Harland Sanders, fundador da KFC, tirada de uma loja da rede ali perto.

Os Tigers nunca mais conquistaram o título, e como o beisebol é cheio de folclores e maldições, estava criada a maldição do coronel. O clube ainda foi à final em 2003 e em 2005, mas amargurou o vice. Em 2009, a notícia de que mergulhadores encontraram e resgataram a estátua do coronel encheu a torcida de esperanças, mas não adiantou. A maldição continua.


Castelo de Osaka (visto de longe)

Devidamente alimentados, partimos para o Castelo de Osaka (não lembro direito, mas eu acho que pegamos a estação Osaka-Namba na linha Kintetsu-Nara, fizemos uma baldeação na estação Tsuruhashi para cair na Osaka Loop Line e aí desembarcamos na estação Osakajokoen.

Construção mais bonita que vimos no Japão, o castelo de Osaka foi construído entre os anos de 1583 e 1585 a mando de Hideyoshi Toyotomi, cuja família controlava o país na época, e passou por poucas e boas ao longo dos séculos…

Foi bombardeado durante o Cerco de Osaka, evento que resultou na destruição do clã Toyotomi (o filho de Hideyoshi, Hideyori, e sua segunda esposa, Yodo-dono, cometeram suicídio em 1615, quando o castelo caiu para as forças dos Tokugawa), foi reconstruído por Hidetada Tokugawa em 1620, mas um incêndio provocado por um raio o destruiu em 1665. Foi novamente reconstruído em 1931, acabou avariado na Segunda Guerra Mundial… Resumindo, a restauração completa, como vemos hoje, é de 1997.

Tanto “destrói-constrói”, no entanto, cobrou seu preço. O exterior está impecável, mas seu interior foi totalmente remodelado para os dias atuais e conta até com um elevador que te leva para o 8° andar, de onde se tem uma bela vista de Osaka. O castelo também conta com um museu, mais informações sobre o Cerco, uma maquete mostrando como ele era quando foi construído, lojinha… As duas entradas custaram 1.200 ienes. Fique atento com o horário porque a entrada é permitida até 16h30 (fecha às 17h).

Castelo de Osaka (visto de perto e à noite)

Com a noite bombando (o sol vai embora umas 16h30/17h no outono), demos um volta pelo parque em torno do castelo e nossa ideia era voltar para Dotonbori e jantar, mas um erro do Google Maps indicou que o último trem para Quioto partiria umas 21h e pouco. Saímos correndo e, já no trem, descobrimos que o último partiria, na verdade, depois das 23h. Sem jantar, mas sem drama. Catarina comprou uma salada no mercado (522 ienes), eu comprei um arroz com curry de um restaurante chamado Yayoiken (750 ienes) e comemos em casa assistindo a um telejornal japonês.

Jantar em Quioto vendo o “Jornal Nacional” japonês

  • Nara, de capital do país a capital dos cervos

Cat e o cervo "sorridente" de Nara

Outro lugar que vale um bate e volta de Quioto é a cidade de Nara, a uns 45 minutos de distância (demora mais do que a viagem para Osaka, que fica um pouquinho mais longe, porque é um trem normal). Basta pegar a Nara Line –administrada pela JR – a partir da estação de Quioto e descer na estação principal de Nara.

Capital do país no século 8, Nara hoje é lar de seres mais legais do que qualquer família real: cervos. Mais de mil deles vivem nas ruas, praças e parques da cidade, e são, talvez, a principal atração de Nara atualmente.

Desde o início da viagem nós vínhamos usando o Google Maps para nos guiarmos e não havíamos tido nenhum problema… até então. Chegamos em Nara umas 16h e o horário de entrada ao templo Todai-ji ia até 16h30. Seriam 30 minutos para percorrer 2,5 km; no passo acelerado, seria bem possível. O aplicativo traçou a rota e fomos. O que não esperávamos é que, em vez de nos levar para a porta do templo, ele mandou dar a volta nele antes.

Essa rota nos custou alguns minutos preciosos. Chegamos à porta do Todai-ji, sem brincadeira, umas 16h32 e demos de cara com ela já fechada – a pontualidade nipônica é imparcial. Gentilmente, um segurança abriu as portas e permitiu que nós e outros turistas atrasados pudéssemos ter um vislumbre – de longe – da casa do Grande Buda de Nara, o maior do mundo (quase 15 metros de altura) feito em bronze.

Todai-ji, casa do Grande Buda de Nara

A frustração pela visita mal-sucedida ao Todai-ji durou pouco. Depois de passar pelo lindo portal Naidamon (Great South Gate), onde ficam os dois “guardiões do Todai-ji”, esculturas com mais de 8 metros de altura, foi hora de interagir com os anfitriões de quatro patas de Nara.

Compramos um pacote de bolachas – parecem senbei sem açúcar (experimentei) – para os cervos por 150 ienes e os alimentamos. Se você “cumprimentá-los” com um gesto da cabeça, eles repetem o gesto e aí você os premia. Encerramos a visita por Nara com um combinado de niguiris, tempuras de camarão e arroz branco (1.800 ienes ou R$ 56) e retornamos para Quioto.


Galeria de fotos de Quioto, Osaka e Nara

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